Ouro no Cancioneiro Popular
O ouro no cancioneiro popular
Compreende-se que o poeta anónimo , se inspirasse para criar composições de quatro versos onde o ouro entrava como motivo importante , portanto o cancioneiro popular não poderia deixar de se referir abundantemente a este metal .
É tradição em Portugal estimar o ouro e usá-lo no dia a dia e em momentos especiais , com mais ou menos profusão , consoante o acontecimento .
Cordões , brincos , anéis , colares , alfinetes e muitas outras peças de ouro ornamentam a mulher portuguesa e muito especialmente a minhota .
Diz Cláudio Basto : “ A evolução do traje tem sido acompanhada pela das jóias , cujo estilo se vai afirmando conforme vai progredindo o bom gosto das aldeias .
A paixão da jóia é própria das mulheres , em todas as partes , em todos os tempos. A mesma exuberância de adornos não é exclusiva da minhota , nem é coisa nova no mundo . Já em velhíssimos tempos , as mulheres se constelavam de jóias , profusamente , - cintilantes quais mostradores de ourivesaria . E até , para a correspondência ser prefeita , outrora como hoje , os lóbulos das orelhas se rasgavam ao peso de dois ou mais pares de brincos “ .
Desde sempre o ouro fascinou todos os povos e os Portugueses não fugiram à regra , razão pela qual o nosso povo tantas vezes utilize o ouro nas suas quadras , comparando-o às suas amadas , ao seu cabelo e aos seu sentimentos .
É um sem fim de quadras populares relacionadas com este tema , o que seria fastidioso transcrever todos os que encontramos no cancioneiro popular.
Muito bem parece o oiro ,
No peito duma donzela ,
Menina , se quer ter honra ,
Menina , faça por ela .
O alecrim é rei das ervas
O oiro é rei dos metais ,
O meu coração rei das penas
Vós , menina , m’as causais.
Toma , amor , colchões d’oiro
Abotoa teu peitinho ;
Peitinho tão delicado
Deve andar conchegadinho .
Toma lá colchetes d’oiro ,
Aperta o teu coletinho ;
Coração que é de nós dois
Deve andar conchegadinho .
Vinde , povo d’arraial ,
Ouvir a cantadeirinha ,
Que traz cordões emprestados
Da grossura d’uma linha .
Muito bem diz um cordão ,
Ao pé dum lenço lavrado ;
Mas bem parece ‘ma m’nina ,
No dia do seu noivado .
Tenho uns brinquinhos d’oiro ,
Fui comprá-lo ao mercado ;
Gosto de ver meu amor ,
Co’ o cabelinho cortado .
Ó minha mãe , não me bata
Com vara de marmeleiro ;
Vai partir as argolas ,
Que me custaram dinheiro ...
Trazes oiro no pescoço ,
Brinquinhos a a dar , a dar ;
É bonita , gosto dela ,
Tem olhos de namorar.
Eu não tenho cordão d’oiro ,
sou filha de gente pobre ,
Bem o haja minha mãe
Que me trás conforme pode .
Anel d’oiro , anel d’oiro
Salta fora do meu dedo ,
Que tu foste o causador
De me cativar tão cedo .
O meu amor não é este ,
O meu amor tem divisa ;
Tem colete cor de rosa ,
Botões d’oiro na camisa .
O meu amor não é este ,
Este traz farda e divisa ;
O meu traje à camponesa ,
Botões d’oiro na camisa .
Bela bota de montar
Usa o meu bem ao domingo
Botão d’oiro na camisa ,
Para vir falar comigo .
Tenho um canivete d’oiro
Ao canto do meu baú ,
Para dar ao meu amor ,
Queira Deus que sejas tu .
Tenho dentro do meu peito
Um canivete doirado ,
Para partir pão de ló
No dia do teu noivado .
O oiro é o que mais brilha
Tu sem ser’s oiro brilhais ,
O oiro perde a valia ,
Tu cada vez vales mais .
O meu amor é ourives
Mora na rua do Oiro
Inda não falei com ele
Já me deu um anel d’oiro .
O meu amor é ourives
E o teu é mercador ,
O meu dá-me prendas d’óiro
O teu roupinhas de cor .
Eu sou pedreirinho novo ,
Faço vasos , capitéis ;
Trabalho com picos de oiro ,
De prata são os cinzéis .
Ó alecrim , rei das ervas ,
Ó oiro , rei dos metais ,
Quem se fia nos vadios ,
Não merece senão ais .
Tenho uma maçã doirada
Ao canto do meu baú ,
Para dar ao meu amor ,
Queira Deus que sejas tu !
Andas abaixo e acima
Como o oiro na balança ;
Em quanto não fores minha
Meu coração não descansa .
Menina , se quer ser minha
Ponha o pé na segurança ;
Pois há - de andar tão direita
Como o oiro na balança .
Toma lá colchetes de oiro
Aperta o teu coração ;
O teu corpo delicado
Inda me há - de vir há mão .
Pequenina e bem feita ,
Assim se quer a mulher :
Delgadinha da cintura
Que caiba num anel .
O anel que tu me deste ,
Cá o tenho , não t’o dou ,
Parti - lo - ei c’ uma pedra ,
P’ra que saibas quem eu sou .
Ó anel das sete pedras ,
Ó anel das pedras brancas ;
Como pode ser leal ,
Quem se diverte com tantas .
Ó anel de sete pedras ,
salta fora do meu dedo ,
Que tu foste o causador
De eu tomar amor’s tam cedo .
O anel que tu me deste
Era de vidro , quebrou-se ;
Tanto dure a tua vida
Como o anel me durou .
Meu amor se te prenderem ,
Deixa-te dar à prisão ,
Que o anel deste meu dedo
Será tua livração .
O anel que tu me deste
No domingo , da Trindade ,
Fica-me largo no dedo ,
Apertado na amizade .
Tenho feito juramento
Nas pedras do meu anel ,
De não amar outros olhos
Senão os teus , Manuel !
Tendes cabelo loiro
Pelas costas , ao comprido ;
Parecem meadas de oiro
A martelo rebatido .
Tuas mãos são branca neve ,
Teus dedos são lindas flores ,
Teus braços cadeias de oiro ,
Laços de prender amores .
Tendes oiro no pescoço ,
Prata fina na garganta !
Queres que te fale , Menina ,
Às horas que o galo canta ?
Já fui às meninas de oiro ,
Dos cristais e diamantes ,
Tenho visto muita estrela ,
Teus olhos são mais brilhantes .
Na cidade há muito oiro ,
Que se vende em grandes molhos ,
Mas não com tanta valia ,
Como a luz d’esses teus olhos !
Menina , não traje branco ,
Que o branco logo se suja ;
Traga amarelo côr de oiro ,
Que é o que agora se usa !
O sol é caixa de oiro ,
A lua é fechadura ,
As estrelas são as chaves
Que fecham minha ventura .
Se eu tivesse papel de oiro ,
Comprava pena de prata ,
Apurava meus sentidos ,
Escrevia - te uma carta .
Na torre do meu sentido
Tenho um leito de oiro armado ,
Par descansar meu bem
Quando vem afadigado .
Está o sol preso à lua ,
A campainha ao sino ;
O teu coração ao meu
Com candeias de oiro fino .
O meu amor está doente
Num leito d’oiro deitado
Nossa Senhora o visite ,
Que a mim não me está dado .
Eu queria-me ir embora
Eu queria ir e não posso
Tenho o meu coração preso
Com um fio d’ oiro ao vosso .
Eu hei - de fazer , fazer ,
O que ainda não ‘stá feito :
Um anel para o meu dedo
E um ramo para o teu peito .
Foste ao Senhor da Serra ,
Nem um anel me trouxeste ;
Nem os moiros da moirama
Faziam o que tu fizeste .
Deitai para cá os olhos
Meu amor , deitai , deitai ;
Que não são moedas de oiro ,
Que roubais ao vosso pai .
O cabelo de Maria
Anda no mar a nadar ;
Quem me dera pentes de oiro ,
Que eu lh’os ia pentear .
Ó oliveira do adro
Carregada de algodão ,
As mulheres pesam a oiro
E os homens a carvão .
O sol é candeia de oiro
A lua e fechadura
As estrelas são as chaves
Que fecham minha ventura .
Ó Manuel , Manuel
Dá o anel à Maria ,
Que já m’o tinha pedido
Para ir à romaria
Entre os portais de Belém
‘Stá uma arv’re de jersé
Com letras d’ouro que dizem :
Jesus , Maria , José .
Três palavras disse a Virgem ,
Quando nasceu o Menino :
Vinde cá meu bago d’ouro ,
Meu Sacramento Divino !
Ó meu Menino Jesus ,
Ó meu anjinho do Céu ,
Quem tem cabelinhos d’ouro
De certo escusa chapéu .
A fontinha era d’ouro ,
E a água de cheiro ;
E o menino era filho
D’um Deus verdadeiro .
Já os filhos de homem rico
Nascem em leito doirado ,
Só o meu Menino Deus
N’umas palhinhas deitado .
Bem podia Deus nascer
N’uma cama d’ouro fino ,
Mas pr’a dar exemplo ao mundo ,
Quiz nascer tão pobrezinho .
O meu coração é de ouro
Tem duzentas gavetinhas ,
Que se fecham com saudades ,
E se abrem com palavrinhas .
-- O uso do ouro emprestado estava totalmente vedado por parte das jovens e por isso , era o próprio povo , que condenaria a actual exibição nos cortejos etnográficos e nas festas populares minhotas , da quantidade exagerada com que adornam os peitos , pois seria impensável que todo esse ouro fosse de sua propriedade .
-- Ter ouro era ter um dote e quanto mais pesados fossem os cordões e outras peças , para além da sua beleza maior interesse teria a jovem , candidata ao coração dum jovem .
-- A maior aspiração duma jovem era ter um cordão , se alguma o não possuía é porque não tinha possibilidades económicas que o permitissem . Não é por acaso que depois dos brincos e arrecadas e colar de contas , a primeira coisa que os pais compravam à jovem era um cordão . O pedido de casamento era invariavelmente acompanhado , com uma ida ao ourives onde seus pais comprariam um cordão a sua filha e o noivo , para mostrar as suas capacidades económicas , compraria outro , de preferência de valor superior .
-- O colete , os botões da camisa e de punho e bem assim o relógio e a respectiva corrente em ouro causavam a mesma sensação que nesta época , um automóvel de boa marca . Compreende-se bem o orgulho da rapariga quando era amada por alguém que se distinguia pelo seu vestuário e pelos adereços em ouro .
-- Um jovem quando começava a oferecer objectos em ouro à sua amada era sinal que o dia do casamento se estava a aproximar . O ouro enriquecia o amor ,pois as ofertas em ouro tornavam os namorados mais felizes .
-- Namorar era preparar o casamento , e o noivo seria obrigado a dar à sua amada peças em ouro para demonstrar o quanto a apreciava e ao mesmo tempo acautelar o futuro de vida em comum .
-- Oferecer uma prenda tinha muito que se lhe diga , pois denotava um determinado gosto , que quanto mais próximo estivesse do gosto da amada , mais o que oferecia dela se aproximava .
-- O anel aparece no nosso cancioneiro popular como uma peça importante que corresponde ao selar dum contrato , que jamais poderia ser quebrado .
-- À medida que se aproximava o dia do casamento ,começavam-se a guardar as flores brancas do quintal , para enfeitar o altar e juncar o adro da igreja e o noivo teria que começar a pensar num bonito anel para oferecer à sua amada , pois este era um dos símbolos maiores do amor .

