2007/06/29

Ouro no Cancioneiro Popular

                              O ouro no cancioneiro popular

 

Compreende-se   que o poeta anónimo , se inspirasse para criar composições de quatro versos onde o ouro entrava como motivo importante , portanto o cancioneiro popular não poderia deixar de se referir abundantemente a este metal .

 

É tradição em Portugal estimar o ouro e usá-lo no dia a dia e em momentos especiais ,  com mais ou menos profusão , consoante o acontecimento  .

Cordões , brincos , anéis , colares , alfinetes e muitas outras peças de ouro  ornamentam a mulher portuguesa e muito especialmente a minhota  .

Diz Cláudio Basto : “ A evolução do traje tem sido  acompanhada pela das jóias , cujo estilo se vai afirmando conforme  vai progredindo o bom gosto das aldeias .

A paixão da jóia é própria das mulheres , em todas as partes , em todos os tempos. A mesma exuberância de adornos não é exclusiva da minhota , nem é coisa nova no mundo . Já em velhíssimos tempos , as mulheres se constelavam de jóias , profusamente , - cintilantes quais mostradores de ourivesaria . E até , para a correspondência ser prefeita , outrora como hoje , os lóbulos das orelhas se rasgavam ao peso de dois ou mais pares de brincos “ .

Desde sempre o ouro fascinou todos os povos e os Portugueses não fugiram à regra , razão pela qual o nosso povo tantas vezes utilize o ouro nas suas quadras , comparando-o às suas amadas , ao seu cabelo e aos seu sentimentos  .

É um sem fim de quadras populares relacionadas com este tema  , o que seria fastidioso transcrever todos os que encontramos no cancioneiro popular.

 

Muito bem parece o oiro ,

No peito duma donzela ,

Menina , se quer ter honra ,

Menina , faça por ela .

 

O alecrim é rei das ervas

O oiro é rei dos metais ,

O meu coração rei das penas

Vós , menina , m’as causais.

 

Toma , amor , colchões d’oiro

Abotoa teu peitinho ;

Peitinho tão delicado

Deve andar conchegadinho .

 

Toma lá colchetes d’oiro ,

Aperta o teu coletinho ;

Coração que é de nós dois

Deve andar conchegadinho .

 

 

 

 

Vinde , povo d’arraial ,

Ouvir a cantadeirinha ,

Que traz cordões emprestados

Da grossura d’uma linha .

 

Muito bem diz um cordão ,

Ao pé dum lenço lavrado ;

Mas bem parece ‘ma m’nina ,

No dia do seu noivado .

 

Tenho uns brinquinhos d’oiro ,

Fui comprá-lo ao mercado ;

Gosto de ver meu amor ,

Co’ o cabelinho cortado .

 

Ó minha mãe , não me bata

Com vara de marmeleiro ;

Vai partir as argolas ,

Que me custaram dinheiro ...

 

 

 

 

Trazes oiro no pescoço ,

Brinquinhos a a dar , a dar ;

É bonita , gosto dela ,

Tem olhos de namorar.

 

 

 

 

 

 

 

Eu não tenho cordão d’oiro ,

sou filha de gente pobre ,

Bem o haja minha mãe

Que me trás conforme pode .

 

 

Anel d’oiro , anel d’oiro

Salta fora do meu dedo ,

Que tu foste o causador

De me   cativar tão cedo .

 

O meu amor não é este ,

O meu amor tem divisa ;

Tem colete cor de rosa ,

Botões d’oiro na camisa .

 

O meu amor não é este ,

Este traz farda e divisa ;

O meu traje à camponesa ,

Botões  d’oiro na camisa .

 

Bela bota de montar

Usa o meu bem ao domingo

Botão d’oiro na camisa ,

Para vir falar comigo .

 

Tenho um canivete d’oiro

Ao canto do meu baú ,

Para dar ao meu amor ,

Queira Deus que sejas tu .

 

Tenho dentro do meu peito

Um canivete doirado ,

Para partir pão de ló

No dia do teu noivado .

 

O oiro é o que mais brilha

Tu sem ser’s oiro brilhais ,

O oiro perde a valia ,

Tu cada vez vales mais .

 

O meu amor é ourives

Mora na rua do Oiro

Inda não falei com ele

Já me deu um anel d’oiro .

 

 

 

 

O meu amor é ourives

E o teu é mercador ,

O meu dá-me prendas d’óiro

O teu roupinhas de cor .

 

Eu sou pedreirinho novo ,

Faço vasos , capitéis ;

Trabalho com picos de oiro ,

De prata são os cinzéis .

 

Ó alecrim , rei das ervas ,

Ó oiro , rei dos metais ,

Quem se fia nos vadios ,

Não merece senão ais .

 

Tenho uma maçã doirada

Ao canto do meu baú ,

Para dar ao meu amor ,

Queira Deus que sejas tu !

 

Andas abaixo e acima

Como o oiro na balança ;

Em quanto não fores minha

Meu coração não descansa .

 

Menina , se quer ser minha

Ponha o pé na segurança ;

Pois há - de andar tão direita

Como o oiro na balança .

 

Toma lá colchetes de oiro

Aperta o teu coração ;

O teu corpo delicado

Inda me há - de vir há mão .

 

Pequenina e bem feita ,

Assim se quer a mulher :

Delgadinha da cintura

Que  caiba num anel  .

 

O anel que tu me deste ,

Cá o tenho , não t’o dou ,

Parti - lo - ei  c’ uma pedra ,

P’ra que saibas quem eu sou .

 

Ó anel das sete pedras ,

Ó anel das pedras brancas ;

Como pode ser leal ,

Quem se diverte com tantas .

 

Ó anel de sete pedras ,

salta fora do meu dedo ,

Que tu foste o causador

 De eu tomar amor’s tam cedo .

 

O anel que tu me deste

 Era de vidro , quebrou-se ;

 Tanto dure a tua vida

 Como o anel me durou .

 

Meu amor se te prenderem ,

Deixa-te dar à prisão ,

Que o anel deste meu dedo

 Será tua livração .

 

O anel que tu me deste

No domingo , da Trindade ,

Fica-me largo no dedo ,

Apertado na amizade .

 

 

 

 

 

Tenho feito juramento

Nas pedras do meu anel ,

De não amar outros olhos

Senão os teus , Manuel !

 

Tendes cabelo loiro

Pelas costas , ao comprido ;

Parecem meadas de oiro

A martelo rebatido .

 

Tuas mãos são branca neve ,

Teus dedos são lindas flores ,

Teus braços cadeias de oiro ,

Laços de prender amores .

 

Tendes oiro no pescoço ,

Prata fina na garganta !

Queres que te fale , Menina ,

Às horas que o galo canta ?

 

Já fui às meninas de oiro ,

Dos cristais e diamantes ,

Tenho visto muita estrela ,

Teus olhos são mais brilhantes .

 

Na cidade há muito oiro ,

Que se vende em grandes molhos ,

Mas não com tanta valia ,

Como a luz d’esses teus olhos !

 

Menina , não traje branco ,

Que o branco logo se suja ;

Traga amarelo côr de oiro ,

Que é o que agora se usa !

 

O sol é caixa de oiro ,

A lua é fechadura ,

As estrelas são as chaves

Que fecham minha ventura .

 

Se eu tivesse papel de oiro ,

Comprava pena de prata ,

Apurava meus sentidos ,

Escrevia - te uma carta .

 

 

 

 

 

Na torre do meu sentido

Tenho um leito de oiro armado ,

Par descansar meu bem

Quando vem afadigado .

 

Está o sol preso à lua ,

A campainha ao sino ;

O teu coração ao meu

Com candeias de oiro fino .

 

O meu amor está doente

 Num leito d’oiro deitado

 Nossa Senhora o visite ,

Que a mim não me está dado .

 

Eu queria-me ir embora

Eu queria ir e não posso

Tenho o meu coração preso

Com um fio d’ oiro ao vosso .

 

 

Eu hei - de fazer , fazer ,

O que ainda não ‘stá feito :

Um anel para o meu dedo

E um ramo para o teu peito .

 

Foste ao Senhor da Serra ,

Nem um anel me trouxeste ;

Nem os moiros da moirama

Faziam o que tu fizeste .

 

Deitai para cá os olhos

Meu amor  , deitai , deitai ;

Que não são moedas de oiro ,

Que roubais ao vosso pai .

 

 

 

 

O cabelo de Maria

Anda no mar a nadar ;

Quem me dera pentes de oiro ,

Que  eu lh’os ia pentear .

 

Ó oliveira do adro

Carregada de algodão ,

As mulheres pesam a oiro

E os homens a carvão .

 

O sol é candeia de oiro

A lua e fechadura

As estrelas são as chaves

Que fecham minha ventura .

 

Ó Manuel , Manuel

Dá o anel à Maria ,

Que já m’o tinha pedido

Para ir à romaria

 

Entre os portais de Belém

‘Stá uma arv’re de jersé

Com letras d’ouro que dizem :

Jesus , Maria , José .

 

Três palavras disse a Virgem ,

Quando nasceu o Menino :

Vinde cá meu bago d’ouro ,

Meu Sacramento Divino !

 

Ó meu Menino Jesus ,

Ó meu anjinho do Céu ,

Quem tem cabelinhos d’ouro

De certo escusa  chapéu .

 

A fontinha era d’ouro ,

E a água de cheiro ;

E o menino era filho

D’um Deus verdadeiro .

 

Já os filhos de homem rico

Nascem em leito doirado ,

Só o meu Menino Deus

N’umas palhinhas deitado .

 

Bem podia Deus nascer

N’uma cama d’ouro fino ,

Mas pr’a dar exemplo ao mundo ,

Quiz nascer tão pobrezinho .

 

O meu coração é de ouro

Tem duzentas  gavetinhas ,

Que se fecham com saudades ,

E se abrem com palavrinhas .

 

 

-- O uso do ouro emprestado estava totalmente vedado por parte das jovens e por isso , era o próprio povo , que condenaria a actual exibição nos cortejos etnográficos e nas festas populares minhotas , da quantidade exagerada com que adornam os peitos , pois seria impensável que todo esse ouro fosse de sua propriedade .

--  Ter ouro era ter um dote e quanto mais pesados fossem os cordões e outras peças , para além da sua beleza maior interesse teria a jovem , candidata ao coração dum jovem .

-- A maior aspiração duma jovem era ter um cordão , se alguma o não possuía  é porque não tinha possibilidades económicas que o permitissem . Não é por acaso que depois dos brincos e arrecadas e colar de contas , a primeira coisa que os pais compravam à jovem era um cordão . O pedido de casamento era invariavelmente acompanhado , com uma ida ao ourives onde seus pais comprariam um cordão a sua filha e o noivo , para mostrar as suas capacidades económicas , compraria outro , de preferência de valor superior .

--  O colete , os botões da camisa e de punho e bem assim o relógio e a respectiva corrente em ouro causavam a mesma sensação que nesta época , um automóvel de boa marca . Compreende-se bem o orgulho da rapariga quando era amada por alguém que se distinguia pelo seu vestuário e pelos adereços em ouro .

--  Um jovem quando começava a oferecer objectos em ouro à sua amada era sinal que o dia do casamento se estava a aproximar   . O ouro enriquecia o amor ,pois as ofertas em ouro tornavam os namorados mais felizes .

-- Namorar era preparar o casamento , e o noivo seria obrigado a dar à sua amada peças em ouro para demonstrar o quanto a apreciava  e ao mesmo tempo  acautelar o futuro de vida em comum .

--  Oferecer uma prenda tinha muito que se lhe diga , pois denotava um determinado gosto  , que quanto mais próximo estivesse do gosto da amada , mais o que oferecia dela  se aproximava .

--  O anel aparece no nosso cancioneiro popular como uma peça importante que corresponde ao selar dum contrato , que jamais poderia ser quebrado .

--  À  medida que se aproximava o dia do casamento ,começavam-se a  guardar as flores brancas do quintal , para enfeitar o altar e juncar o adro da igreja e o noivo teria que começar a pensar num bonito anel para oferecer à sua amada , pois este era um dos símbolos maiores do amor .

Escrito por Manuel Freitas em 23:07:17 | Link permanente | Comments (0) |